Manejo Sustentável do Solo no Rio Grande do Sul: Estratégias para Enfrentar Extremos Climáticos
O Rio Grande do Sul vem enfrentando, desde 2020, uma sucessão de eventos climáticos extremos: quatro grandes estiagens intercaladas por enchentes devastadoras. Diante desse cenário, produtores rurais resgatam práticas de conservação do solo e sistemas de produção resilientes, combinando técnicas tradicionais e inovação regenerativa. Esses métodos não apenas elevam a produtividade em anos normais, mas mantêm a rentabilidade em períodos de seca ou chuvas excessivas.
Plantio Direto, Rotação de Culturas e Adubação Verde: O Caso de Mato Leitão
No município de Mato Leitão, a 135 quilômetros de Porto Alegre, o agricultor Astor João Posselt desenvolve há mais de duas décadas um modelo exemplar de manejo conservacionista. Em seus 47 hectares, onde cultiva uma sequência de soja, milho e trigo, ele aplica plantio direto, correção química e biológica do solo e cobertura verde permanente.
Em anos de estiagem severa, as lavouras bem manejadas alcançam de 50 a 55 sacas de soja por hectare, contra apenas 20 nas áreas convencionais.
No milho, a diferença se mantém: de 150 a 170 sacas por hectare em terrenos sob plantio direto e rotação, frente a 80 a 100 sacas em campos sem esse cuidado.
Para Astor, investir no solo é equivalente a poupar capital: “Nossa empresa é a terra”, afirma. A correção de acidez e a adubação com leguminosas garantem maior retenção de água e estabilidade de nutrientes, compensando o custo inicial com ganhos recorrentes, sobretudo em condições climáticas adversas.
Conservação de Pastagens e Bioma Pampa: A Transformação em Santo Antônio das Missões
No extremo noroeste gaúcho, o pecuarista Manoel Gamarra de Moraes, em uma propriedade de 57 hectares, adotou em 2022 um sistema de pastejo rotacionado e manejo intenso de pastagens para superar a mortandade da forragem provocada pela seca. As principais mudanças foram:
Redução da lotação: venda de parte do rebanho para concentrar o pastejo em piquetes menores.
Pastejo rotacionado em piquetes, que recupera a cobertura vegetal e preserva o sistema radicular.
Substituição da queima de capim pela roçada mecânica, armazenando palha no solo e prevenindo erosão.
Hoje, o peso médio de abate subiu de 150 para 250 quilos por animal, e áreas de campo nativo do Pampa são preservadas em parceria com o Projeto Recuperação de Biomas. A iniciativa, conduzida pelo governo estadual e pela Fetag-RS, promove restauração ecológica e conservação da biodiversidade em pastagens degradadas.
Programa “Nosso Solo, Nossa Colheita”: Cooperativa Coasa e Agricultura Regenerativa
Em Água Santa, no norte gaúcho, a cooperativa Coasa implantou o programa “Nosso Solo, Nossa Colheita” para estimular as boas práticas agrícolas nos 70 hectares de cada associado. Entre os pilares do programa estão:
Cobertura permanente do solo, com palhada e culturas de cobertura (aveia, ervilhaca).
Plantio direto aliado à rotação diversificada de culturas (soja, milho, trigo, aveia).
Manejo orientado ao aumento da matéria orgânica e à regeneração natural do solo.
Produtor típico do programa, Gilson Miorando comprova rendimentos 10% maiores em anos de seca, em comparação a áreas sem esses cuidados. A ação foi apresentada como um case de sucesso na COP30, em Belém, reforçando o valor da agricultura de baixo impacto ambiental para a mitigação de riscos climáticos.
Políticas Públicas e Acesso ao Seguro Rural
Apesar dos resultados positivos dessas práticas, muitos produtores ainda enfrentam barreiras para adotar o manejo sustentável: custo de implementação, carência de assistência técnica e acesso restrito a linhas de crédito e seguro rural. É fundamental que políticas públicas ampliem:
Programas de capacitação e assistência técnica local.
Linhas de financiamento com juros reduzidos para práticas conservacionistas.
Seguro rural acessível e coberturas ajustadas às novas variabilidades climáticas.
Fortalecer o ambiente de investimentos no campo, atrelando financiamento às metas de melhoria da cobertura do solo e recuperação de áreas degradadas, garantirá maior adesão a técnicas que elevam a resiliência do agronegócio gaúcho.
O exemplo de produtores como Astor, Manoel e Gilson demonstra que o segredo para enfrentar extremos climáticos está na qualidade do solo e no equilíbrio entre produtividade e sustentabilidade. Ao combinar plantio direto, rotação de culturas, manejo de pastagens e regeneração dos ecossistemas, o Rio Grande do Sul constrói uma agricultura mais resistente, capaz de manter a rentabilidade mesmo em condições adversas. Essa transição rumo a práticas regenerativas é imperativa para assegurar o futuro do campo e a segurança alimentar no Brasil.
