Nova proposta de seguro rural paramétrico gera incertezas entre seguradoras e produtores
O anúncio de um modelo paramétrico obrigatório para o seguro rural brasileiro vem motivando intensos debates no setor de seguros e no agronegócio. A Federação Nacional de Seguros Gerais (Fenseg) apoia a revisão da política de subvenção, mas alerta para riscos de base, lacunas em parâmetros de medição e exigências operacionais que ainda carecem de definição clara.
Modelo paramétrico: vantagens, riscos e imprecisões
O seguro rural paramétrico baseia-se em gatilhos pré-estabelecidos — como índices de chuva medidos por satélite — para acionar automaticamente o pagamento ao produtor. Essa simplicidade operacional reduz custos de inspeção em campo e acelera a liquidação de sinistros. No entanto, há o “risco de base”: áreas menores ou heterogêneas podem apresentar disparidades entre a chuva real e a registrada pelos sensores, gerando resultados imprecisos. Quanto mais segmentada a área agrícola, maior a chance de distorções nos parâmetros e de reclamações por pagamentos indevidos ou insuficientes.
Definição de gatilhos, preços e papéis de seguradoras
Ainda não está claro se o governo irá padronizar totalmente os gatilhos e preços ou se cada seguradora poderá customizar suas apólices. A ausência de diretrizes objetivas leva executivos do setor a defenderem reuniões com o Ministério da Agricultura para apresentar sugestões e garantir estabilidade contratual. Caso as seguradoras definam individualmente os ativadores de sinistro, haverá desafios na precificação e na homologação de produtos, além da necessidade de ajustes técnicos sofisticados, especialmente para a venda direta a pequenos produtores.
Obrigatoriedade de contratação e aceitação de produtores e instituições financeiras
O novo formato prevê que o seguro paramétrico seja exigido em financiamentos rurais com recursos controlados. Empresas de agronegócio e bancos demonstram receio quanto à comercialização de um produto pouco conhecido e obrigatório. Para o grande agricultor, a adoção pode se dar com relativa facilidade. Já na venda a varejo, a complexidade em explicar os gatilhos de chuva, excesso hídrico ou seca torna o processo mais demorado e sujeito a resistência, o que pode impactar a concessão de crédito rural.
Transição orçamentária e necessidade de piloto
Segundo a Fenseg, a desidratação de recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) nos últimos três anos fez a área segurada encolher. Uma transição do modelo tradicional para o paramétrico demandaria entre seis meses e um ano, além de um projeto piloto para validar rotinas de mensuração e regulação de sinistros. A adoção gradual garantiria aprendizado técnico, ajustes contratuais e previsibilidade orçamentária, reduzindo o risco de interrupções no fluxo de subvenções e na oferta de cobertura.
Salto de R$ 20 bilhões para R$ 200 bilhões em valores segurados
Com a obrigatoriedade do seguro paramétrico, o mercado potencial saltaria de cerca de R$ 20 bilhões para mais de R$ 200 bilhões em soma de valores segurados. Esse aumento expressivo exige confiança de investidores e capitalização adequada das resseguradoras. O setor alerta para a necessidade de estabilidade nas regras e garantias de repasse de risco ao mercado internacional, sob pena de comprometimento da alocação de recursos.
Cobertura complementar: frequência de eventos climáticos
Por sua característica “catastrófica” — cobrindo apenas extremos de chuva ou seca — o seguro paramétrico não atende à recorrência de pequenos eventos climáticos (granizo, geada, vendavais, incêndios). Produtores com fluxo de caixa mais apertado priorizam apólices que cubram frequências médias de perdas. Assim, será imprescindível oferecer planos complementares voluntários, cobrindo outros riscos climáticos e agronômicos, o que elevará a demanda por capital de risco e por subvenção adicional.
Desafios de capital de risco e capacidade financeira das resseguradoras
Para suportar a nova demanda de R$ 200 bilhões obrigatórios e dezenas de bilhões extras em coberturas voluntárias, será necessário mobilizar capital de risco em níveis até dez vezes maiores do que os atuais. O mercado local pode não dispor desse volume de recursos de imediato, o que impõe barreiras à liquidez e à formação de carteiras robustas. A solidez das resseguradoras e o engajamento de investidores internacionais serão determinantes para viabilizar o modelo no curto e médio prazos.
A implementação de um seguro rural paramétrico obrigatório representa uma mudança profunda na gestão de riscos climáticos no campo. Apesar do potencial de expansão da cobertura, é fundamental estruturar com clareza os gatilhos, preços e o cronograma de transição, bem como assegurar capitalização adequada e canais de comercialização que atendam tanto grandes empresas quanto pequenos produtores. Só assim será possível garantir previsibilidade orçamentária, confiança no mercado de seguros e maior resiliência do agronegócio brasileiro frente às variabilidades climáticas.
