Queda histórica no preço do algodão em setembro alcança patamar mais baixo desde 2015
As cotações do algodão no Brasil registraram, em setembro, o quarto mês consecutivo de retração, atingindo o menor valor real desde fevereiro de 2015. Segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a média do indicador Cepea/Esalq caiu 6,6% em relação a agosto e ficou 8,26% abaixo da registrada em setembro de 2022, equivalendo a R$ 3,5416 por libra-peso (ajustado pelo IGP-DI de agosto). No último dia útil do mês, 30 de setembro, a cotação fechou em R$ 3,6552 por libra-peso, acumulando um recuo de 6,44% no período.
Fatores internacionais pressionam as cotações domésticas
O movimento de baixa não se limita ao Brasil. As cotações internacionais de algodão sofreram desvalorizações nos principais mercados consumidores, pressionadas por estoques elevados e demanda global moderada. A China, maior importadora de pluma, revisou suas compras após estocar volumes recordes, reduzindo a necessidade de aquisições no mercado externo. Paralelamente, a flexibilização de tarifas em alguns países produtores e as perspectivas de oferta abundante nos EUA e na Índia mantêm o valor da fibra em patamar contido.
Safra 2024/25 deve atingir produção recorde
No âmbito doméstico, a expectativa de uma produção recorde na safra 2024/25 intensifica a oferta interna de algodão. Dados preliminares apontam para uma área plantada em elevação, com clima favorável sendo apontado pelos técnicos como um dos principais responsáveis por aumentos de produtividade em várias regiões produtoras. A conclusão da colheita, já em ritmo acelerado na maior parte dos estados, reforça a elevada disponibilidade de pluma no mercado spot.
Oferta elevada e flexibilidade dos vendedores
O cenário de abundância faz com que muitos vendedores adotem posturas mais flexíveis em relação aos preços pedidos. A necessidade de escoar estoques e de liquidez imediata injeta maior competitividade nas negociações. Compradores ativos, munidos de boa capacidade de negociação, buscam condições ainda mais vantajosas, o que acaba por pressionar as referências de valor acompanhadas pelo Cepea/Esalq.
Impacto econômico para produtores e cadeia têxtil
Para os produtores, a queda nos preços reduz margens de rentabilidade e pode comprometer o custeio de novos investimentos em maquinário e infraestrutura rural. Ao mesmo tempo, a indústria têxtil, grande consumidora de pluma, se beneficia de matéria-prima mais barata, ampliando seu potencial de competitividade no mercado interno e em exportações de produtos acabados. Esse alívio de custos, no entanto, depende de logística eficiente para escoamento e de contratos de longo prazo que minimizem riscos de volatilidade.
Perspectivas para os próximos meses
Analistas do Cepea destacam que, enquanto durar a elevada oferta e persistirem as pressões externas, o viés baixista tende a se manter. A evolução da demanda interna e das exportações, bem como possíveis oscilações cambiais e alterações climáticas em grandes produtores mundiais, deverão influenciar o comportamento dos preços. Produtores são aconselhados a diversificar canais de venda e avaliar instrumentos de hedge para mitigar os efeitos de quebras prematuras de safra ou quedas abruptas nas cotações.
Estratégias de comercialização e gestão de risco
Diante do novo patamar de preços, cooperativas e tradings têm incrementado programas de armazenagem e financiamento para que o produtor retenha parte da produção buscando um melhor momento de venda. Contratos futuros e opções de venda na bolsa de mercadorias oferecem alternativas para travar preços e reduzir incertezas. A adoção de ferramentas de gestão — como seguro agrícola e operações de crédito vinculadas à antecipação de receita — pode ajudar a proteger as finanças rurais em ciclos de baixa.
Em síntese, setembro marcou um ponto de atenção para o algodão brasileiro, com o menor preço real em dez anos e impactos diretos na cadeia produtiva. A combinação de oferta recorde, desvalorizações externas e flexibilidade dos vendedores pode estender o ritmo de baixa, exigindo dos agentes do setor maior atenção às estratégias de comercialização e gestão de riscos para preservar margens e garantir sustentabilidade ao agronegócio.
