Queda de 40% nos preços do arroz em casca no Rio Grande do Sul em 2025
No acumulado de 2025, o Indicador Cepea/Irga-RS registra uma retração de aproximadamente 40% no valor do arroz em casca negociado no Rio Grande do Sul. Em setembro, a desvalorização chegou a 10,75%, encerrando o mês com preço médio de R$ 60,03 por saca de 50 kg. Essa movimentação inédita nos últimos anos reflete um conjunto de fatores que pressiona as margens dos produtores e pode alterar significativamente o planejamento da próxima safra.
Oferta ampla e mercado interno estável
A principal força por trás da queda acentuada nos preços é o excesso de oferta. Produtores gaúchos colheram volumes recordes, impulsionados por condições climáticas favoráveis e investimentos em tecnologia de cultivo. Contudo, a demanda interna pelo grão manteve-se estável, sem apresentar aceleração capaz de absorver o aumento da produção. Em um cenário de oferta abundante, a competição entre vendedores intensificou-se, pressionando as cotações para baixo.
Exportações em ritmo lento e retração internacional
Embora o arroz brasileiro tenha ganhado espaço no mercado externo nos últimos anos, as exportações em 2025 caminham em ritmo mais lento do que o esperado. Dificuldades logísticas, concorrência de competidores tradicionais e limitações na capacidade de embarque reduziram o volume exportado, limitando uma das principais válvulas de escape para os estoques internos. Além disso, as cotações internacionais do arroz estão nos menores níveis dos últimos 43 meses, segundo dados da FAO, tornando a venda ao mercado externo menos atrativa.
Indicadores globais: índice da FAO e principais exportadores
O Índice Global de Preços do Arroz Beneficiado, compilado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), caiu para 101,4 pontos em agosto. Esse valor equivale a uma redução de 2,03% em relação a julho e 24,33% abaixo de agosto de 2024. Entre 18 países analisados, 16 apresentaram quedas expressivas nas cotações, com destaque para Brasil, Argentina e Uruguai. Essa sincronia de recuo mundial sinaliza que, mesmo com custos de produção e logística distintos, as pressões de oferta e estoques elevados são generalizadas.
Repercussões para a safra 2025/26 e ajuste de área plantada
Pesquisadores do Cepea alertam que as margens estimadas para a próxima safra de arroz estão sob forte pressão. Com preços em patamares desestimulantes, muitos produtores deverão rever os custos de produção e, sobretudo, a área destinada ao cereal. A redução no plantio já se caracteriza como estratégia para tentar equilibrar oferta e demanda, diminuir estoques e, consequentemente, favorecer a recuperação das cotações. Em várias regiões do Rio Grande do Sul, produtores vêm sinalizando a migração de parte das áreas para culturas alternativas, como soja de segunda safra ou pastagens temporárias.
Perspectivas de curto e médio prazo
No curto prazo, a queda internacional e a estabilidade da demanda doméstica devem continuar como fatores limitantes para uma recuperação rápida dos preços do arroz em casca. A safra de verão, que já começou a ser plantada em algumas regiões do Estado, seguirá orientada pela cautela: insumos e investimentos serão calibrados à luz dos custos atuais e da expectativa de preços. No médio prazo, políticas públicas de apoio, como programas de armazenagem ou linhas de crédito ajustadas, poderão ter um papel relevante na recomposição de margens e na retomada do ritmo exportador.
Estratégias para o produtor enfrentar o momento
Para mitigar os efeitos da queda de preços, especialistas recomendam:
• Monitorar de perto os estoques próprios e de mercado, evitando o excesso de produtos armazenados sem perspectiva de escoamento.
• Avaliar a adoção de contratos de venda futura ou mecanismos de hedge em bolsas de commodities, garantindo ao menos parte da receita planejada.
• Buscar parcerias com cooperativas e tradings para acessar melhores condições logísticas e prazos de pagamento.
• Analisar, junto a assistentes técnicos e consultores, o mix de culturas e a rotação de culturas para as próximas safras, visando à diversificação de renda.
Influência das condições climáticas e logísticas
Além dos fatores de mercado, variáveis como mudanças climáticas e capacidade de transporte influenciam diretamente o custo e a competitividade do arroz gaúcho. Eventuais interrupções de chuvas ou problemas em estradas e ferrovias podem agravar ainda mais os custos de produção e frete, comprometendo as margens. Investimentos em armazenamento de grãos e soluções inovadoras para logística podem se tornar diferenciais estratégicos no processo de comercialização.
O ambiente de preços baixos e oferta elevada reforça a urgência de políticas públicas e iniciativas privadas que promovam maior eficiência produtiva e logística, preservando a rentabilidade do setor de arroz no Rio Grande do Sul e garantindo a competitividade do Brasil no mercado global.
