Produtor Identifica Espaço para Expansão do Cultivo Agroecológico no Brasil
A agroecologia tem ganhado força no país como um sistema de produção que alia aumento de produtividade, preservação ambiental e justiça social. Durante a segunda edição do Fórum da Agricultura Familiar, realizado em Salvador (BA) no dia 12 de novembro, agricultores, pesquisadores e autoridades debateram as potencialidades e os gargalos para que o cultivo agroecológico alcance maior escala e penetre de forma consistente nos mercados consumidores.
O Papel da Embrapa na Agroecologia
“A agroecologia é um dos nove portfólios do plano estratégico da Embrapa. A gente acredita fortemente nisso”, afirmou Aldo Vilar Trindade, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura. Para Trindade, o principal obstáculo ao avanço desse modelo está na carência de transferência tecnológica e no reduzido portfólio de soluções adaptadas às especificidades locais. Sistemas agroecológicos demandam técnicas de manejo diversificadas, como consórcio de culturas, rotação de cobertura verde, controle biológico de pragas e recuperação de solos degradados. Contudo, muitas dessas práticas ainda não estão formalizadas em tecnologias ou protocolos de fácil acesso para o produtor.
Integração entre Agricultura e Meio Ambiente
O cultivo agroecológico valoriza saberes tradicionais, reduz o uso de insumos químicos e promove ciclos fechados de nutrientes, minimizando impactos ambientais. Esses sistemas oferecem benefícios como:
• Aumento da biodiversidade no entorno das lavouras
• Melhoria na saúde do solo e retenção de água
• Produção de alimentos mais saudáveis e sem resíduos de agrotóxicos
• Fortalecimento de comunidades rurais e economia solidária
Apesar dessas vantagens, o segmento ainda enfrenta limitações de escala e dificuldades para se inserir em cadeias formais de suprimento.
Infraestrutura, Transporte e Barreiras de Mercado
A logística é um entrave recorrente para a agroecologia. Segundo o secretário de Desenvolvimento Rural da Bahia, Osni Cardoso, “as grandes redes não valorizam esses produtos. O desafio não é só transportar, é também o preço. (…) Há quase 120% de lucro real em cima dos produtos, e a única função do mercado é ter uma gôndola e passar o produto. Precisamos de mecanismos para regular isso.” Produtores relatam dificuldades em acessar supermercados e centros urbanos devido a custos elevados de frete, falta de refrigeração adequada e à ausência de cadeias logísticas exclusivas para itens orgânicos e agroecológicos.
Marketing, Análises e Certificação
Outro ponto crítico destacado no fórum é o marketing e a credibilidade junto ao consumidor. Muitos produtos são comercializados sem selo orgânico ou agroecológico, o que gera insegurança e limita a fidelização em grandes redes de varejo. A presidente da Unicafes nacional, Fátima Torres, ressaltou que “já temos vários produtos da agricultura familiar em mercados e com identificação aqui na Bahia. São esses espaços que buscamos ocupar para que o consumidor os encontre.” A ausência de certificações acessíveis encarece a produção e dificulta a comprovação de origem e práticas sustentáveis.
Crédito Rural e Políticas de Financiamento
Para dar escala ao setor, os participantes apontaram a necessidade de crédito rural barato e desburocratizado. Wanger Antônio de Alencar Rocha, presidente do Banco do Nordeste na Bahia, reconheceu os desafios regulatórios e documentais que impedem o acesso pleno às linhas de financiamento. “Existem questões regulatórias, documentais e de acesso que precisam ser enfrentadas,” afirmou Rocha. Mesmo sendo o principal agente de crédito para a agricultura familiar na região, o banco ainda trabalha para ampliar a cobertura e adequar os produtos às realidades locais.
O ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, sinalizou avanços para 2026: “Não há mais razão para manutenção dos juros nesses patamares. Esse é um debate que temos feito com o Ministério da Fazenda e com o Banco Central, que compactuam com essa visão.” Entre as prioridades, estão o aumento do volume de recursos disponíveis e a elevação dos subsídios para reduzir o custo efetivo do crédito rural destinado a produtores familiares e agroecológicos.
Perspectivas e Caminhos para o Crescimento
Para que o cultivo agroecológico avance de forma sustentável e em larga escala no Brasil, é fundamental:
• Fortalecer a pesquisa e a transferência de tecnologia adaptada às diferentes regiões
• Desenvolver infraestrutura logística dedicada a produtos orgânicos e agroecológicos
• Simplificar processos de certificação e criar selos regionais de confiança
• Ampliar linhas de crédito com juros mais baixos e menos burocracia
• Estabelecer políticas públicas integradas entre agricultura, meio ambiente e setores de comércio
Ao ocupar novos espaços de comercialização, como mercados locais, feiras orgânicas, cestas compartilhadas e plataformas diretas ao consumidor, a agricultura familiar agroecológica pode consolidar sua presença, gerar emprego e renda no campo e oferecer alimentos de maior valor agregado ao público. A construção de uma cadeia competitiva, justa e transparente depende da articulação entre produtores, pesquisadores, instituições financeiras e poder público. Dessa forma, o agroecossistema brasileiro terá condições de prosperar, garantindo segurança alimentar, fortalecimento territorial e sustentabilidade ambiental.
