França e Itália buscam adiar votação do acordo Mercosul-União Europeia
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia enfrenta resistência de países liderados por França e Itália, que tentam formar uma “minoria de bloqueio” para postergar a decisão final em Bruxelas.
Contexto político e articulação diplomática
Nos bastidores de Bruxelas, o presidente francês Emmanuel Macron e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni alinharam posições em favor do adiamento da votação do acordo Mercosul-UE. A iniciativa é motivada pela preocupação de produtores agrícolas europeus com o impacto de uma abertura súbita de mercado a produtos provenientes do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Segundo fontes da Reuters, a França intensificou contatos com parceiros na Europa Central e no Báltico para conseguir votos suficientes que impeçam a aprovação imediata do texto.
Receio dos agricultores europeus
Produtores de carne bovina e de aves, especialmente na França e na Itália, temem que o influxo de cortes mais baratos do Mercosul pressione ainda mais os preços internos. Entre as queixas estão as diferenças de padrões sanitários e de controle ambiental, que supostamente colocariam o agronegócio europeu em desvantagem. Recentemente, em evento na Alemanha, líderes de associações rurais destacaram o “maior rigor” nos controles domésticos em comparação com os países sul-americanos, reforçando o argumento de que salvaguardas adicionais são necessárias antes de qualquer liberalização.
Projeto de salvaguardas trazido pelo Parlamento Europeu
Na última semana, o Comitê de Comércio Internacional do Parlamento Europeu aprovou uma proposta de salvaguardas contra importações de produtos agrícolas sensíveis do Mercosul. As principais mudanças em relação ao texto original da Comissão Europeia são:
– Redução do limiar de investigação: importações de carnes de aves e bovina passariam a ser avaliadas sempre que crescerem 5% em média ao longo de três anos (anteriormente, o gatilho era 10%).
– Prazos mais curtos para análise: de seis para três meses nos casos gerais e de quatro para dois meses para produtos sensíveis, permitindo respostas mais rápidas às distorções de mercado.
O projeto, relatado pelo espanhol Gabriel Mato, foi aprovado no comitê com 27 votos favoráveis, oito contrários e sete abstenções. Mato destacou que essas cláusulas “reforçam a proteção aos agricultores europeus e conferem maior confiabilidade ao regulamento”.
Próximas etapas na tramitação
A discussão plenária do Parlamento Europeu está marcada para esta semana, até quinta-feira (18/12), em Bruxelas. Além das salvaguardas, os parlamentares podem introduzir emendas que tragam exigências ambientais e sanitárias adicionais. Caso a maioria bloqueie a proposta atual, será adiado o calendário de votação em plenário, abrindo espaço para negociações de última hora entre a Comissão Europeia, o Conselho e os países-membros contrários.
Impactos para o agronegócio brasileiro
A postergação da votação poderá atrasar a tão aguardada aprovação do acordo, que prevê a eliminação gradual de tarifas para produtos como carne, açúcar, etanol e frutas. Para o Brasil, adiamentos sucessivos significam incerteza para exportadores, que projetam ganhos de até US$ 24 bilhões por ano com a expansão do acesso europeu. A insegurança regulatória também pode adiar investimentos em infraestrutura de logística e no setor produtivo, ajustados à expectativa de elevação de demanda.
Desafios e cenários futuros
Se a minoria de bloqueio se consolidar, as negociações terão que contemplar mecanismos de salvaguarda ainda mais rigorosos ou cronogramas de desoneração tarifária mais gradativos. Por outro lado, o Mercosul e o Brasil poderão pressionar por compensações em outros setores, como serviços e compras governamentais, ou redobrar esforços junto a grupos de países favoráveis dentro da UE. O êxito da França e da Itália dependerá da capacidade de estender a resistência a nações-chave, como Alemanha, Holanda e Espanha, onde interesses agrários também estarão em pauta.
Ao mesmo tempo, o debate sobre sustentabilidade e cumprimento de metas do Acordo de Paris ganha força, podendo integrar cláusulas ambientais vinculantes ao pacto Mercosul-UE. A inclusão de indicadores sobre desmatamento, uso de agrotóxicos e bem-estar animal pode ser o fator decisivo para convencer parte dos opositores a reter o veto.
Ao final, o futuro do acordo Mercosul-União Europeia será definido pelo equilíbrio entre interesses comerciais, protecionismo agrícola e pressões geopolíticas. A votação que deveria selar o entendimento na capital belga agora se transformou em terreno de intensas manobras diplomáticas, com impacto direto nas estratégias de exportação e no calendário de investimentos do setor agropecuário brasileiro.
