O avanço da pecuária brasileira nas últimas décadas ganhou impulso decisivo com a adoção e o aprimoramento de raças taurinas de origem europeia. A seleção intensiva, o uso de tecnologias genéticas e a adaptação aos sistemas produtivos nacionais elevaram indicadores zootécnicos e consolidaram o Brasil como protagonista no mercado global de carne de alta qualidade.
Salto de produtividade das raças taurinas no Brasil
Dados do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) revelam uma evolução consistente em todas as oito raças taurinas avaliadas: Angus, Brangus, Hereford, Braford, Devon, Shorthorn, Charolês e Simental. A média de ganho de peso aos 550 dias, principal indicador de desempenho, cresceu de forma sustentada em mais de três décadas, refletindo estratégias de melhoramento genético cada vez mais eficientes e específicas para as condições climáticas e de manejo brasileiras.
Angus: o peso premium que conquistou o mercado
A raça Angus destaca-se pela combinação de rusticidade e elevado potencial de ganho de peso. Em 1992, os animais mediam em torno de 315 kg aos 550 dias; hoje, alcançam, em média, 520 kg – um incremento de 205 kg, equivalente a 65% de crescimento. Esse salto não apenas atesta a adaptação da raça ao Sul do país, mas também sustenta sua liderança no segmento de carnes premium. Em 2024, o Brasil exportou 3.137 toneladas de carne Angus, 9,2% a mais que no ano anterior, e abateu 510 mil cabeças, um crescimento de 1,5%. Embora represente apenas 0,1% das exportações totais de carne bovina, esse volume sinaliza a consolidação do produto em nichos de alto valor agregado.
Inovações genéticas e CRISPR no melhoramento bovino
A seleção acelerada, orientada por avaliações genômicas e sistêmicas, permitiu avanços simultâneos em ganho de peso, qualidade de carne e funcionalidade. O peso ao nascer, por exemplo, manteve-se estável ao longo das gerações, assegurando partos menos distócicos e menor mortalidade neonatal. Em 2025, a Embrapa e a Associação Brasileira de Angus celebraram o nascimento dos primeiros bezerros Angus com edição gênica via CRISPR na América Latina, um marco que aponta para a adoção de ferramentas disruptivas no rebanho comercial.
Avanços zootécnicos e objetivos de seleção
A definição clara de metas zootécnicas – como aumento da área de olho de lombo, melhoria do marmoreio e eficiência de conversão alimentar – orienta a escolha de reprodutores de excelência e a multiplicação rápida do material genético. Desde 2000, os touros Angus registraram um crescimento de 50% na área de olho de lombo, alcançando 23,66 cm² a mais, o que se traduz em melhores rendimentos de cortes nobres. Simultaneamente, o índice de Gordura Intramuscular (GIM) quase dobrou em três anos, saindo de menos de 0,03 em 2020 para 0,058 em 2023, elevando a suculência e o sabor da carne.
Marbling e área de olho de lombo: diferenciais de mercado
O aumento do marmoreio reforça a atratividade da carne brasileira nos mercados de alto padrão. O GIM, medido em cortes padronizados, responde diretamente às demandas dos consumidores por textura macia e distribuição equilibrada de gordura. O aumento da área de olho de lombo, por sua vez, amplia a oferta de cortes premium e melhora a rentabilidade do produtor, que percebe valor agregado em cada quilo produzido.
Cruzamentos industriais: a união entre Angus e Nelore
No Brasil, o cruzamento industrial é uma estratégia consolidada para combinar rusticidade e qualidade de carne. Entre todas as mesclas, oito em cada dez apresentam Angus como componente taurino, aliado ao Nelore, que representa de 85% a 90% do rebanho nacional. Essa combinação otimiza o desempenho em pasto, resistência a parasitas e climas tropicais, sem abrir mão da maciez e do marmoreio que diferenciam a carne premium.
Brangus: crescimento e estrutura da raça
Fruto do cruzamento entre Angus e Brahman, ainda no início do século XX, a raça Brangus foi a que registrou a maior expansão no Promebo recentemente, com 17% de aumento no número de animais avaliados. A mescla une a precocidade e o marmoreio da Angus à rusticidade e tolerância ao calor do Brahman, gerando bovinos ideais para regiões de clima mais severo sem perda de qualidade de carcaça.
Charolês: equilíbrio de peso ao nascer e facilidade de parto
A seleção direcionada reduziu o peso ao nascer dos machos Charolês de 44 kg, em 1994, para 37,3 kg, e das fêmeas de 40,5 kg para 35,8 kg, ao longo de 30 anos. Essa diminuição, longe de comprometer a produtividade, resultou em menores índices de distocia e maior sobrevivência dos bezerros, facilitando a rotina de manejo e reduzindo custos com assistência veterinária.
Hereford e Braford: certificação e expansão do rebanho
O Hereford brasileiro alcançou 600 mil animais registrados, especialmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, impulsionado por programas de avaliação genética oficiais. A Associação Brasileira de Hereford e Braford destaca que o país possui vantagens competitivas frente a produtores tradicionais, como Argentina e Estados Unidos, não apenas pela adaptabilidade dos animais, mas também por ter o único programa oficial de certificação de carne Hereford no mundo. Esse selo agrega valor à proteína e fortalece a imagem do Brasil como fornecedor de carnes rastreadas e de elevada padronização.
As raças taurinas de origem europeia, ao aliar melhoramento genético avançado, tecnologias emergentes e uma meticulosa definição de objetivos, elevaram a produtividade e a qualidade da pecuária de corte no Brasil. O resultado está nos campos, nas indústrias de processamento e nas mesas dos consumidores: carne brasileira cada vez mais competitiva, sustentável e alinhada às exigências dos mercados internos e externos.
